sábado, 6 de agosto de 2011

Um novo mundo sem ‘AAA’

2 de agosto de 2011 | 7h00

José Paulo Kupfer

‘Anunciaram e garantiram que o mundo ia se acabar e o tal do mundo não se acabou’. Dava para ouvir a voz
de Carmem Miranda e até ver seus olhos revirando na interpretação típica do clássico samba-choro de Assis Valente,
enquanto os mercados avaliavam o acordo nos Estados Unidos para um aumento do limite da dívida pública.

O mundo não se acabou, neste início de agosto de 2011, como não acabaria com o calote americano e não acabou com a
passagem do cometa Halley, em 1910, mote da obra-prima da música brasileira. Mas, como descrevem os menos
lembrados últimos versos de “E o mundo não se acabou”, gravado em 1938 pela “Pequena Notável”, “vai ter barulho e vai
ter confusão porque o mundo não se acabou”.

Com a notícia de que republicanos e democratas chegaram a um acordo-quadro que levaria a um aumento do limite da
dívida, permitindo ao governo americano honrar seus compromissos, na abertura dos pregões, hoje, bolsas e dólar
subiram. Reação inicial de alívio diante do que parecia a véspera do caos – hipótese improvável, mas mercados
alavancados, típicos da atual quadra, são tudo menos moderados. Logo se viu, porém, que essa reação não seria
duradoura.

Só a possibilidade, antes inimaginável, do calote, já foi suficiente para indicar que os mercados nunca mais seriam os mesmos. Não há mais ativo habilitado a receber, sem alguma ressalva, o carimbo de “AAA”. Essa é a novidade que
prevalecerá depois do fim da novela do limite da dívida pública americana. Os portos cem por cento seguros entre os
ativos existentes no mundo caíram em exercício findo.

Os títulos de 10 anos do Tesouro americano ocupavam o topo dos papéis tidos como praticamente livres de riscos. Do
volume de ativos “AAA”, os chamados “treasuries” respondiam por um terço do total. Existem, portanto, outros títulos
“AAA”, mas, hoje, na prática, quando se sabe que até o governo americano pode dar um calote em seus credores – ou em
seus aposentados, desempregados e segurados – nenhum papel, mesmo que ostente o rating mais elevado, está livre de
desconfiança.

Isso não significa o exagero de uma reviravolta radical nas escolhas dos ativos mais seguros para investir ou utilizar como instrumento de hedging. No fim das contas, a classificação dos créditos é sempre relativa a algum padrão – benchmark, no jargão do mercado – estabelecido. Na falta de outros ativos com igual liquidez, mesmo baleado, os “treasuries” devem permanecer no topo dos ratings. Títulos “AA”, resumindo, podem ser os novos “AAA”.

As sequelas, de todo modo, não serão desprezíveis. As incertezas, no mercado, que vinham aumentando desde os
primeiros sinais da crise, na segunda metade da década passada, alcançaram agora um momento exponencial. Maiores
graus de incerteza se traduzem por custos mais altos para delimitá-las, além de, naturalmente, redução de espaços para
alavancar recursos.

Os modelos de previsão, os algoritmos de alta frequência e toda uma parafernália de instrumentos e métodos
desenvolvidos, ao longo dos últimos 30 anos, com o objetivo de eliminar incertezas no comportamento dos mercados,
escancararam suas fragilidades. Enquanto se apresentavam como a última conquista do gênio humano, permitiram, ao lado de uma liquidez fora do comum, alavancagem financeira sem precedentes – o volume total de ativos chegou a ultrapassar, em dólares, o equivalente a quatro vezes a produção global de bens e serviços, a cada ano. Agora é a hora da volta, de desinflar o que se distanciou demais de um ponto qualquer de sustentação e ficou solto no ar.

A economia americana sai desse episódio da crise da dívida pública muito mais combalida do que entrou. É uma incógnita se os programas previstos de redução do déficit público contribuirão para reequilibrar a atividade econômica ou aprofundar a crise.

A tendência de desvalorização do dólar, diante de tal quadro de incertezas, obedece a movimentos naturais de uma economia estrangulada por déficits monumentais. E também atende aos interesses de recuperação da atividade econômica, pela via clássica do incremento das exportações.
Má notícia para boa parte do mundo, inclusive países como o Brasil, que, sem poupanças para combater, com menores
custos, a valorização de suas moedas, podem ser chamados a pagar um pedaço da conta dos excessos que hoje
convulsionam o mundo econômico.

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