segunda-feira, 16 de agosto de 2010

EMERGENTES - Brasil tem diferenças importantes com Brics / Sergio Leo

Só a Índia, entre os países conhecidos como Brics, tem total liberdade para o câmbio; e a cotação da rúpia, moeda local, tem caído em relação ao dólar.

Também pudera, o comércio exterior indiano tem um déficit gigantesco, as importações superaram as exportações em mais de US$ 10 bilhões só em junho e, nesse mês, apesar de haver um superávit no comércio de serviços, ficaram deficitárias em US$ 13 bilhões as contas correntes do país, que incluem pagamentos de royalties e outras rendas, e transferências de moeda ao exterior. Só o apetite dos investidores permite à Índia fechar suas contas externas com um pequeno superávit. Será um bom modelo para o Brasil?

A demonstração de que só a Índia, entre os Brics, encaixa-se na definição de país com câmbio flutuante consta de trabalho recém-concluído pela Confederação Nacional da Indústria, comparando as políticas de câmbio de Brasil, Rússia, Índia e China durante a crise financeira recente. Apesar das diferenças de regimes de câmbio, todos os Brics, à exceção da China, tiveram movimentos de valorização da moeda em relação ao dólar até meados de 2008 - enquanto a China, comprando dólares massivamente, manteve inalterada a cotação do yuan.

Entre maio de 2008 e maio de 2010, mais uma vez a China destoou, valorizou ligeiramente a moeda, em 2,1%, enquanto os outros desvalorizavam, em ritmos distintos: a rúpia, 8,8%, o real, 9,2% e o rublo, submetido, como a moeda brasileira a uma espécie de flutuação "suja", quase 29%. Rússia e Índia perderam reservas nesse período, enquanto China e Brasil aumentaram as suas. (A China em mais de US$ 600 bilhões, volume quase três vezes o total das reservas do Brasil).

Curiosamente, porém, o Brasil só ficou abaixo da Rússia em matéria de turbulência na taxa de câmbio, e a Índia, apesar do câmbio livre, não mostrou tanta incerteza em seu mercado cambial. A diferença entre a situação indiana e a brasileira, de maior imprevisibilidade, tem a ver com a maior estabilidade nos fluxos financeiros para a Índia, menores e menos voláteis que os atraídos ao Brasil pelas altas taxas de juros do país. Enquanto a taxa de câmbio indiana parece responder mais a fatores estruturais, a brasileira soma, às tendência naturais da economia, as oscilações de humor do mercado financeiro, provocando o governo a intervir.

Essa forte influência dos fluxos financeiros sobre a taxa de câmbio são um dos fatores a demonstrar, segundo o gerente executivo da Unidade de Política Econômica da CNI, Flávio Castelo Branco, que no Brasil é necessária maior coordenação entre as políticas monetária, fiscal e comercial, inclusive dos mecanismos de defesa comercial, como processos antidumping e de salvaguardas, para evitar uma crescente deterioração das contas externas do país. Brasil não é Índia, os indianos, apesar do grande déficit comercial, estão em uma economia bem mais fechada, com mais barreiras a aumentos bruscos de importação.

Evidentemente, o câmbio não é a única desvantagem dos exportadores brasileiros, que teriam muito a ganhar com avanços na redução de carga tributária, educação da mão de obra e na melhoria da infraestrutura, de portos à burocracia alfandegária. Mas é inegável que o câmbio da moeda chinesa, estável e bastante desvalorizado mesmo durante os piores momentos da crise internacional, ajuda os exportadores chineses a conquistar mercados antes cativos dos fornecedores brasileiros.

Recente atualização ainda inédita feita pela professora da Fundação Getúlio Vargas Lia Valls Pereira de estudo sobre a perda de mercado para os chineses mostra que, em comparação com 2005, a fatia de mercado perdida pelo Brasil à China nos EUA, União Europeia e América Latina em 2008 equivale a quase US$ 6 bilhões em mercadorias. Mais preocupante é o aumento da parcela das perdas atribuídas à competição chinesa fora dos tradicionais setores de calçados e têxteis, em produtos sofisticados como celulares, máquinas e equipamentos e automóveis.

Nas vendas aos Estados Unidos, 43% da queda nas vendas de produtos cerâmicos pode ser atribuída à competição chinesa; na União Europeia, foi mais sensível a derrota para os chineses nas vendas de móveis, produtos fundidos de ferro e aço e em máquinas e equipamentos; na Argentina, embora a China ameace principalmente nos setores tradicionais de têxteis - onde mais de 90% da queda nas vendas brasileiras se deveu à opção pelos asiáticos-, sinais de alarme soam até no setor automobilístico: as perdas de mercado em automóveis atribuídas à China somam quase US$ 180 milhões, apenas 2% do total exportado aos argentinos mas quase 68% da fatia de mercado perdida pelo Brasil para estrangeiros.

Uma avaliação desapaixonada do comportamento do comércio exterior brasileiro mostra que ainda é notável o crescimento das exportações e que há folga nas contas externas para abrigar a progressiva deterioração do saldo comercial. Mas sinais como os do estudo da CNI e do levantamento de Lia Valls não devem ser ignorados; sugerem medidas de correção enquanto ainda são apenas indicadores de tendências negativas da economia brasileira.

Estados Unidos encaram alta dos déficits comercial e fiscal

O déficit comercial dos Estados Unidos aumentou 19% em junho, para US$ 49,90 bilhões, marcando uma máxima recorde em 21 meses, segundo o Departamento de Comércio. O déficit em maio foi revisado para US$ 41,98 bilhões. Originalmente, o déficit de maio havia sido calculado em US$ 42,27 bilhões. O resultado foi maior do que a média das previsões dos economistas, que esperavam déficit de US$ 42,7 bilhões.

As exportações caíram 1,3% em junho, para US$ 150,45 bilhões, de US$ 152,44 bilhões em maio. As importações subiram 3,1%, para US$ 200,35 bilhões, de US$ 194,42 bilhões.

O déficit real, que é ajustado pela inflação e que os economistas usam para medir o impacto do comércio exterior no Produto Interno Bruto (PIB), subiu para US$ 54,14 bilhões em junho, de US$ 45,99 bilhões em maio.

As importações de produtos de consumo avançaram 7,8%, conduzidas pelas compras de produtos farmacêuticos e de limpeza. As importações de automóveis subiram 6,6%, enquanto as de bens de capital cresceram 1,2%.

Em valor, as importações de petróleo subiram para US$ 22,60 bilhões em junho, de US$ 21,54 bilhões em maio. O preço médio do barril caiu cerca de 6%, ou US$ 4,49, para US$ 72,44. Em volume, a importação de petróleo cresceu em 32 milhões de barris, para 311,93 milhões de barris.

Os Estados Unidos pagaram US$ 28,02 bilhões por todos os tipos de produtos ligados ao setor de energia em junho, ante US$ 27,60 bilhões em maio.

As importações de produtos de consumo fabricados no exterior como farmacêuticos, brinquedos e vestuário subiram em US$ 3,1 bilhões. As importações de autopeças cresceram em US$ 1,29 bilhão, enquanto as de bens de capital fabricados fora do país, como computadores, avançaram em US$ 462 milhões. As importações de alimentos e de ração para animais aumentaram em US$ 33 milhões. As importações de suprimentos industriais recuaram em US$ 186 milhões em junho.

As exportações dos EUA de bens de capital caíram em US$ 1,43 bilhão. Os embarques de suprimentos industriais, como óleo combustível, diminuíram em US$ 1,01 bilhão. As exportações de bens de consumo aumentaram levemente em US$ 123 milhões em junho, enquanto as de automóveis cresceram em US$ 233 milhões. As exportações de alimentos, ração animal e bebidas caíram em US$ 310 milhões.

Já o déficit comercial dos Estados Unidos com a China ampliou-se para US$ 26,15 bilhões em junho, o maior nível desde outubro de 2008 e 17% acima do déficit de US$ 22,28 bilhões de maio.

O dado deve oferecer mais munição aos legisladores norte-americanos, que pressionam a administração Obama para que exija da China mudança em sua política de câmbio.

Orçamento

O Departamento do Tesouro dos Estados Unidos informou que o governo do país teve um déficit orçamentário de US$ 165,04 bilhões em julho. Economistas consultados pela Dow Jones previam um déficit levemente maior, de US$ 169,5 bilhões. Julho foi o 22º mês consecutivo de déficits orçamentários nos EUA. O déficit do mês passado também foi o segundo maior da história no mês de julho, atrás apenas do de 2009, de US$ 180,68 bilhões.

Segundo o Departamento do Tesouro, a receita somou US$ 155,55 bilhões em julho deste ano, de US$ 151,48 bilhões no mesmo mês do ano passado. As despesas totalizaram US$ 320,59 bilhões em julho deste ano, de US$ 332,16 bilhões no mesmo mês de 2009.

Ajuda de US$ 3 bi

O governo Obama planeja disponibilizar US$ 3 bilhões adicionais em ajuda a desempregados com dificuldades de pagar hipotecas nos EUA. Ontem, o governo anunciou o plano para acrescentar US$ 2 bilhões ao Fundo para os Mais Atingidos, anunciado em fevereiro, destinado a apoiar os mercados de moradias nos estados norte-americanos que sofreram o pior impacto durante a recessão. Também foi anunciado que o Departamento de Habitação e Desenvolvimento Urbano norte-americano lançará um novo programa de US$ 1 bilhão para empréstimos-ponte a proprietários de imóveis em risco de inadimplência.

O déficit comercial dos EUA subiu 19% em junho, a US$ 49,90 bilhões. Já o déficit orçamentário foi a US$ 165,04 bilhões em julho.

DESAQUECIMENTO - BC dos EUA muda política para aquecer economia

Fed recua de planos de aperto monetário e vai comprar títulos do Tesouro. EUA dão sinais de enfraquecimento com desaceleração do PIB, aumento de pessoal sem emprego e deflação.

Com a economia americana dando sinais cada vez mais claros de desaceleração, o Fed (o banco central dos EUA) disse ontem que pretende adquirir títulos do Tesouro para reanimar a retomada e impedir a deflação.

A ideia da entidade é usar os recursos dos títulos lastreados em hipotecas de seu portfólio que estão vencendo para a compra de papéis do Tesouro americano. Com isso, visa reduzir os juros para empresas e indivíduos.

A estimativa é que sejam adquiridos cerca de US$ 100 bilhões em títulos do Tesouro americano ao ano, um valor pequeno em relação ao total do balanço do Fed, que comprou, a partir de 2007, mais de US$ 1,3 trilhão em papéis ligados a hipotecas (especialmente das agências Fannie Mae e Freddie Mac).

A ação do Fed, se não chega a ser agressiva (já que não vai aumentar o tamanho do seu portfólio, mas, sim, mantê-lo em cerca de US$ 2 trilhões), marca, porém, uma mudança na sua política.

As medidas anteriores do banco central pavimentavam um caminho para o aperto da política monetária, em que iria reduzir gradualmente o seu portfólio e, eventualmente, subir os juros.

Agora, isso mudou e já há quem fale que o Fed pode retomar o ciclo de relaxamento monetário, com uma nova rodada de compra de ativos.

Essa alteração se deve aos sinais de enfraquecimento da maior economia mundial. "O ritmo da recuperação econômica provavelmente será mais modesto, no curto prazo, do que vinha sendo antecipado", afirmou o Fed, em nota divulgada ao fim da reunião do comitê monetário.

O avanço do PIB americano se desacelerou do primeiro para o segundo trimestre, o desemprego continua a crescer e a economia acumula três meses seguidos de deflação, com os consumidores relutantes em gastar.

China planeja medidas para impulsionar as suas importações

O governo da China planeja anunciar um pacote de medidas destinadas a impulsionar as importações. A afirmação foi feita por um funcionário do Ministério do Comércio, depois que os dados publicados ontem indicaram que o crescimento das importações desacelerou acentuadamente em julho. As importações de julho subiram 22,7%, abaixo do aumento de 34,1% de junho e das expectativas de aumento de 30,2%.

A fonte informou que o ministério concederá uma entrevista coletiva hoje para falar sobre as medidas e não forneceu mais detalhes. Não havia um porta-voz disponível no ministério para comentar.

Mais cedo, o Escritório Nacional de Estatísticas da China informou que a produção industrial do país cresceu 13,4% em julho na comparação com o mesmo mês do ano passado, desacelerando em relação aos 13,7% de junho. A expansão foi maior do que a mediana das previsões de nove economistas, que apontava para um crescimento de 13,2%.

Já o investimento em ativos fixos nas áreas urbanas chinesas aumentou 24,9% no período janeiro-julho em relação a igual intervalo de 2009, diminuindo o ritmo na comparação com o crescimento de 25,5% verificado no período janeiro-junho. A previsão dos economistas indicava expansão de 25,3% nos sete primeiros meses do ano.

As vendas no varejo do país, também divulgadas ontem, tiveram no mês passado um aumento de 17,9% sobre as de julho de 2009, abaixo dos 18,3% registrados em junho.

Por sua vez, o índice de preços ao consumidor na China teve aumento de 3,3% no mês de julho, na comparação anual. A taxa de inflação foi menor do que a vista nos 12 meses encerrados em junho, que foi de 2,9%.

Por outro lado, as instituições financeiras da China concederam 532,8 bilhões de iuanes (US$ 78,657 bilhões) em novos empréstimos em iuanes no mês de julho, informou o banco central chinês. O total ficou abaixo da previsão de economistas, que apontava para 600 bilhões de iuanes, e também foi menor do que os 603,4 bilhões de iuanes em novos empréstimos concedidos em junho. Em geral, os bancos emprestam mais no primeiro semestre e no início dos trimestres.

Entre janeiro e julho, foram concedidos 5,16 trilhões de iuanes em novos empréstimos, 68,8% da meta estabelecida pelo banco central para 2010 de 7,5 trilhões de iuanes e a qual a instituição não pretende alterar, segundo informou. Portanto, os bancos poderão conceder mais 2,34 trilhões de iuanes em novos empréstimos até o fim do ano.

Derrubar juros: só uma receita funciona

No longo tempo da inflação descontrolada, formaramse no Brasil duas correntes: uma dizia que a inflação era a inimiga principal e que, sem eliminála, o Brasil não teria futuro. A outra sustentava que o país deveria se preocupar com políticas de crescimento, inclusive e especialmente com gastos públicos e estatais, podendose dar um jeito nessa questão, secundária, dos preços. Que jeito? Tabelamento definido pelo governo, acordos entre patrões e empregados, ameaças a alguns supermercados.

No lado mais sofisticado desse projeto de conviver com a inflação, nasceu a correção monetária, para “neutralizar” o fogo do dragão. Se todos os ativos, preços e salários fossem igualmente corrigidos, ficava todo mundo na mesma, mesmo que os valores nominais mudassem todo dia.

Acontece, porém, que não é possível corrigir tudo ao mesmo tempo, pelo mesmo indexador. Para simplificar: preços podiam ser remarcados todos os dias; salários, na melhor hipótese, mensalmente. Se você colocasse 100 cruzeiros no banco, não tinha correção. Se aplicasse um milhão, ganhava a correção plena.

A correção monetária acabou, assim, multiplicando os efeitos perversos da inflação: quanto mais dinheiro a pessoa tinha, mais tinha como ganhar da inflação; pobres e assalariados pagavam a conta. A correção acabou sendo uma solução engenhosa para uma economia avacalhada.

Quando o pessoal que considerava a inflação como o obstáculo maior conseguiu emplacar o Real, em 1994, a tese se demonstrou na prática. Enquanto caía a inflação — de inacreditáveis 2.447%, em 1993, para o também inacreditável índice de 1,6% em 1998 — o salário real tinha ganhos sucessivos, até atingir seu maior valor em 1999.

E como a inflação acabou? Por uma combinação de imaginação criadora — para acabar com a ampla e espalhada indexação dos preços — com ortodoxia (âncora cambial, ajuste de contas públicas, responsabilidade fiscal, saneamento de dívidas dos Estados, privatizações, liquidação e/ou capitalização de bancos públicos reformados).

E mais: em vez de tabelamento e controle de preços, liberdade de mercado.

Em vez de fechamento de mercado local, abertura às importações, que forçaram o produtor local a derrubar preços e melhorar a qualidade.

Mas por que estamos tratando desse passado? Porque ele está presente no debate atual em torno de uma questão crucial: por que os juros continuam tão elevados no Brasil? Como derrubá-los? Há duas correntes.

Uma coloca a culpa no que considera uma exagerada ortodoxia neoliberal do Banco Central. Por essa miopia ideológica, o BC manteria juros muito acima do que seria necessário para conter a inflação.

Ou então, mais grave que isso, o BC manteria juros elevados simplesmente para turbinar os lucros dos bancos e dos especuladores do mercado financeiro global. Por isso, diz esse pessoal, o BC não pode ter autonomia. Independente, o BC eleva os juros.

Para essa turma, portanto, basta uma decisão política do presidente da República determinando ao BC que reduza a taxa básica de juros de imediato. Com isso, segue a explicação, se resolve de tabela um outro problema, o das contas públicas. Como a despesa com juros é muito pesada, reduzindo-se a taxa de juros que incide sobre os títulos da dívida pública, o gasto do governo federal cairia abruptamente, sobrando dinheiro para outros programas e investimentos.

Ou seja, é uma coisa muito fácil de fazer, não exige sacrifício algum e dá um baita benefício.

É a mesma postura em relação à inflação do passado. Também essa corrente dizia que não precisava fazer nenhum sacrifício, nenhuma reforma monetária, nada de controle de gasto. Bastava o governo forçar o crescimento econômico que o aumento da produção derrubaria a inflação.

Espantam o viés antimercado e uma atitude de quem não se manca.

Se fosse tão simples, será que alguém, em algum país, já não teria feito? Ou mesmo aqui. Qual presidente não adoraria derrubar os juros? Também espanta a cegueira em relação ao mundo. Dizem aqui que o BC não pode ser autônomo (ou independente) porque, nessa condição, tende a elevar juros.

Ora, é o contrário: BCs independentes, na lei, praticam juros mais baixos.

Dizem também aqui que a meta de inflação tem de ser mais alta — os nossos 4,5%, para permitir mais crescimento.

Mas os países que têm meta mais baixa combinam menos inflação, menos juros e mais crescimento.

O que nos leva à outra corrente, que se pode chamar amplamente da turma do Real. Hoje, esse pessoal sustenta que há duas providências imediatas para derrubar os juros no Brasil: 1. Fixar em lei a autonomia do Banco Central e reduzir a meta de inflação; 2. O governo federal iniciar um programa de médio prazo de redução do gasto público, também definido em lei, determinando que a despesa cresça sempre menos que a expansão da economia. Isso reduziria o tamanho do Estado e permitiria diminuir a carga tributária.

É mais difícil, mas também se considerava impossível (ou desnecessário) acabar com a inflação no Brasil.

Por que os juros continuam tão elevados no Brasil? Como derrubá-los?

Carlos Alberto Sardenberg

Tobogã da economia

Tobogã da economia
Antonio Machado

O clima na economia global está fechando outra vez, com alertas e chamados à prudência expelindo o teor otimista dos comunicados dos economistas, consultorias, dos bancos e de governos, até de países emergentes que escaparam relativamente incólumes à grande crise.

Em meio ao ambiente festivo da campanha eleitoral, o consumo com pegada firme, empregos e salários crescendo, oposição desalentada pela avassaladora taxa de aprovação do presidente Lula, aqui tais prognósticos pessimistas só estão refletidos no eletrocardiograma do preço das ações na Bovespa e no fluxo de ingresso de capitais.

O noticiário econômico e a maioria das análises tratam a crise lá fora descontextualizada da economia nacional, enquanto ao governo não convém, pelo menos até o término do processo eleitoral, turvar a sensação de bem-estar da sociedade atribuída ao crescimento.

Ainda não se entranharam nas decisões e no debate análises sérias sobre as consequências de outro tombo dos EUA - e encavalado agora com o reconhecimento da dificuldade da China para mudar seu modelo de crescimento do pólo exportador para o mercado doméstico.

Se um dos dois motores da economia globalizada deixar de rodar em velocidade de cruzeiro, como vinha a China desde que degringolou o dos EUA, o mundo pode não parar, mas será como entrar à noite numa estrada de mão dupla, sem sinalização, chovendo e congestionada. O risco de colisões e engavetamento é elevado.

Do que se gabam governos como Lula com a chamada “nova geografia comercial”, que enfatiza o intercâmbio comercial com emergentes em geral e a China em particular, em detrimento do comércio com EUA, é totalmente dependente desse fenômeno apelidado de G-2: a relação umbilical entre as economias chinesa e americana.

É ela que tem feito o bode dos déficits comerciais dos EUA voar, já que financiados pelas reservas acumuladas pela China graças ao renminbi propositalmente depreciado. A China se tornou a fábrica de produtos baratos dos EUA, primeiro, e do mundo, depois.

Isso tem um preço salgado: a China sustentar os déficits dos EUA, enviando dois terços das reservas acumuladas (US$ 2,3 trilhões) e não aplicadas no país em papéis indexados ao dólar. A depreciação foi bancada, como explica o economista americano Michael Pettis, professor da Universidade de Pequim, à custa de salários ínfimos, rede pública pífia de serviços sociais e impostos indiretos.

Caronas da bicicleta
O desbalanceamento entre déficits dos EUA e superávits da China, secundados por outros superavitários como produtores de petróleo, Alemanha, Japão, Brasil e Índia – e os dois últimos influenciados pelas importações chinesas de bens primários -, a crise global não resolveu. Mas expôs a fragilidade do arranjo e desidratou os EUA.

Se a bicicleta que movimenta a interação EUA-China parar, não cai um ou outro apenas. Caem os dois e todos os países dependentes das pedaladas de ambos, acidentando-se os que mais estão condicionados à dinâmica importadora da China. Brasil está na fila do gargarejo.

Tecla pausa acionada
Nos EUA é como tivesse sido pressionada a tecla pausa da retomada iniciada em meados do segundo semestre de 2009. “Nós assistimos a uma pausa da recuperação, uma recuperação modesta, mas a pausa de uma recuperação modesta é sentida como uma quase-recessão”, disse o ex-presidente do Federal Alan Greenspan, personagem polêmico, já que muito ouvido, embora acusado de ter gestado a crise ao manter por tempo demais, nos anos 2000, juros básicos próximos de zero.

Os alertas de Ben Bernanke, seu sucessor no Fed, não desautorizam o pessimismo. Greenspan acha alto o risco de outra recessão, até pela paralisia do governo Barack Obama pela eleição legislativa de novembro. Pesquisas sinalizam que vai perder a maioria na Câmara.

Encruzilhada chinesa
Na China, o aumento do consumo doméstico esperado não vem, o que parece empurrar o governo à velha saída de exportar o que produz. O país se tornou o maior mercado de carros do mundo, por exemplo, com 15 milhões de unidades vendidas em 2009, superando os EUA.

Mas o secretário-geral da associação dos fabricantes, Dong Yang, como destaca o economista Pettis, projeta para o ano crescimento de apenas 10%, vindo de 48% no primeiro semestre e 45% em 2009. Ou seja, os recordes de vendas se deveram somente a incentivos dados pelo governo. Sem eles, as vendas devem cair 20% neste semestre. Com EUA trafegando na contramão do crescimento e a China pisando no freio, o que virá? No Brasil, só o mercado interno não basta.

Selic aliena o debate
A situação da economia global, ditada pelo que vai aos EUA, China e mais atrás Europa e Japão, vai influenciar a política econômica do futuro governo. Nenhum país é uma ilha. Dos países que importam se sabe tudo. Da China, porém, só o que o governo chinês informa.

A censura alcança até o relatório anual do FMI, fonte primária de comparações entre economias e de suas projeções. Mais que isso só garimpado. A agência Bloomberg, por exemplo, achou numa revista de junho do governo chinês artigo em que o vice-premiê Li Kegiang diz que o modelo econômico criou uma “estrutura econômica irracional”. “O desenvolvimento descoordenado e insustentável é cada vez mais evidente”, disse, agitando o já movediço cenário global. Foi outro sinal do debate medíocre no Brasil, se limitado à Selic.

Em artigo no FT, analista diz que Lula 'arrisca legado' fomentando 'euforia' petroleira

Em artigo no influente diário britânico Financial Times, o diretor-executivo do instituto Fernand Braudel de Economia Mundial, Norman Gall, alerta para o risco de o presidente Luiz Inácio Lula da Silva "por em risco seu legado" por conta das polêmicas envolvendo as políticas de seu governo para o petróleo.

Intitulado "Euforia com o petróleo põe em risco o legado de Lula", o texto encadeia argumentos críticos ao que o autor considera serem ambições de "escala demasiadamente grande e perfil demasiadamente alto" assumidas pela Petrobras em sintonia com os benefícios políticos para o governo.

"Lula está usando a imagem do Brasil como potência petroleira emergente como uma arma política, invocando sentimentos de triunfalismo para ajudar a levar o PT à vitória (eleitoral)", escreve Norman Gall.

Em outro trecho, o acadêmico afirma: "Da mesma forma que (na legenda) Ícaro viu suas asas de cera derreterem quando voou perto demais do sol, Lula está arriscando seu legado à medida que as polêmicas se multiplicam em relação às suas políticas petroleiras".

Polêmicas

Entre as controvérsias tratadas pelo artigo está o que o autor denomina uma "estranha política da descoberta", afirmando que a candidata do governo à Presidência, Dilma Rousseff, estava à frente do conselho de administração da Petrobras justamente quando o governo preparava o projeto do pré-sal, que dará mais poderes à estatal sobre as novas reservas.

A outra questão, para o autor, é a segurança. "A explosão do poço Macondo, da BP, em abril, expôs as dificuldades de exploração petroleira em águas profundas", diz.

Situadas a uma profundidade muito maior no Oceano – e bem mais distantes da costa que os poços da BP –, as reservas da Petrobras colocam para a empresa "desafios logísticos" de escala muito mais impressionante, argumenta Gall.

O artigo lembra ainda que a legislaçãco do pré-sal coloca a estatal como operadora única dos campos de petróleo descobertos na área e que os ambiciosos planos da empresa vão requerer investimentos de US$ 224 bilhões no médio prazo.

"As necessidades financeiras da companhia são tão grandes agora que fazem parecer pequena a capacidade de investimento do governo federal do Brasil, em um país que precisa desesperadamente gastar mais em infraestrutura e educação."

Para Normal Gall, isso também deve "tirar recursos de outras prioridades", como a Copa do Mundo de 2014, as Olimpíadas de 2016, a hidrelétrica de Belo Monte e o trem-bala entre Rio e São Paulo.

"Quando Lula chegou ao poder, em 2003, teve a sabedoria de reconhecer que os brasileiros não aceitariam um retorno à inflação crônica que impediu seu bem-estar durante décadas. Os críticos agora argumentam que o aumento no gasto público, junto com as polêmicas financeiras envolvendo as descobertas de petróleo, pode significar um infeliz retorno ao passado", escreveu.

"Se o Brasil não endireitar suas prioridades, Lula pode descobrir em breve que sua reputação está afundando à mesma profundidade que as reservas de petróleo que tanto entusiasmaram seu país."

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Irã já afeta laços comerciais Brasil-EUA

A deterioração nas relações entre Brasil e EUA em meio a divergências quanto à questão iraniana começa a ameaçar os laços comerciais bilaterais.

Autoridades brasileiras queixam-se privadamente de que seu esforço, em maio, para mediar um acordo nuclear foi descartado, com pouco caso ao status do Brasil como potência emergente.

Enquanto isso, Washington se irrita com a interferência em tema que julga uma das maiores ameaças de longo prazo à segurança global.

O que mais preocupa investidores agora é o risco real de uma rusga de longo prazo que pode afetar negativamente os negócios bilaterais.

"Me preocupa", disse o representante (deputado) democrata Eliot Engel, presidente do subcomitê de Relações Exteriores da Câmara dos EUA. "Acho que a política de Lula [almeja] separar os países. Ele quer que os EUA tenham menos influência."

Uma importante fonte em Brasília disse que hoje "estão no freezer" os laços bilaterais --já danificados por tensões como a disputa sobre subsídios americanos ao algodão, as diferenças de opinião quanto ao desfecho do golpe de Estado em Honduras e o resultado decepcionante da cúpula climática de Copenhague, em dezembro.

"DECEPÇÃO"

Diplomatas dos dois lados mantêm contatos regulares, e o fluxo de investimento mútuo está em alta. Mas há sinais de que a rusga começa a afetar os negócios, a saber:

1) Lobistas em prol do uso de etanol de milho, produzido nos EUA, usam a questão iraniana para reivindicar a manutenção das tarifas à importação do etanol brasileiro.
2) Está empacado o diálogo pelo acordo de comércio e investimentos (TIFA). Uma fonte diz que o atraso é a "primeira vítima fatal" da disputa em torno do Irã.
3) Alguns itens correm o risco de serem removidos pelo Congresso de um programa de tarifas preferenciais que, hoje, permite a exportação de US$ 3 bilhões em produtos brasileiros aos EUA.
Arturo Valenzuela, o mais alto diplomata do governo Obama para a América Latina, nega que o Irã afete os laços entre EUA e Brasil.

"Nossa decepção com esse assunto em particular não nos impedirá de trabalhar juntos em numerosos e significativos temas de interesse mútuo", disse por e-mail.

Já Steven Bipes, diretor-executivo da seção americana no Brazil-U.S. Business Council, se disse "frustrado".

Do lado brasileiro, não há sinais de retaliação, mas sim indicações de um desvio de atenções -dos EUA para a China. Empresas americanas já perderam fatias de mercado no Brasil nos últimos anos, e, em 2009, a China suplantou os EUA como maior parceiro comercial do Brasil.

Mark Smith, ex-diretor da Câmara de Comércio americana, disse que os temores sobre a queda da influência americana no Brasil são exagerados. Diz que a China compra sobretudo commodities, enquanto os EUA adquirem produtos com valor agregado do Brasil.

"Quanta influência você pode obter comprando minério de ferro?", questionou. "Importamos aviões e serviços. É aí que está o futuro."

REAÇÃO

O Itamaraty disse ontem, por meio de sua assessoria de imprensa, que, na visão do governo brasileiro, "a posição adotada em relação ao Irã não prejudica ou ameaça o comércio com os EUA".

Colaborou a Sucursal de Brasília

domingo, 1 de agosto de 2010

Guerras entre Estados são cada vez mais raras no mundo, diz estudo Desde 1945, maioria dos conflitos armados ocorre

Em 2009, o mundo presenciou um total de 365 conflitos políticos, entre os quais sete guerras e 24 crises severas. É o que diz um estudo do Instituto Heidelberg para Pesquisas em Conflitos Internacionais (HIIK), publicado anualmente. O número não é muito diferente do ano anterior, que registrou 353 confrontos, mas o que chama a atenção numa análise mais detalhada é a mudança na natureza das guerras nas últimas décadas. Segundo a pesquisa, chamada ‘Conflitobarômetro’ [clique aqui para ler a íntegra, em inglês], hoje, é cada vez mais difícil a batalha direta entre duas nações. “Conflitos muito violentos entre Estados são extremamente raros. [...] Desde o declínio da União Soviética, seu número caiu severamente – nos últimos anos, apenas um ou até nenhum conflito entre estados é contabilizado por ano”, explicou em entrevista ao G1 uma das diretoras do Instituto, Lotta Mayers.

Baseado nesse estudo, o G1 publica a partir desta quinta-feira (29) uma série de reportagens analisando os principais conflitos armados no mundo. A primeira é sobre a guerra do Afeganistão. Para Kristine Eck, professora da Universidade Uppsala, na Suécia, todo o período pós-Segunda Guerra foi marcado por um número maior de conflitos internos do que de guerras entre Estados. "Mas deve-se levar em conta também que, apesar de as nações estarem menos inclinadas a lutarem diretamente entre si, elas geralmente fornecem apoio a grupos rebeldes, como um tipo de 'guerra proxy' [guerra por procuração], provendo apoio com armamentos, treinamento ou ajuda financeira. Esse tipo de ajuda é recebida em 75% de todos conflitos internos."

Além disso, o modo como os confrontos terminam também tem mudado. Antes da Guerra Fria, segundo a professora Eck, a maioria das guerras terminava com uma vitória militar de um lado e destruição do outro. "Hoje, essa é a maneira mais improvável de acabar um confronto. Os conflitos terminam de um jeito diferente agora: é mais provável que eles acabem com um cessar-fogo, um acordo de paz, ou outro motivo, como mudança de liderança ou de estratégia."

Outra mudança apontada por Eck é a diminuição de mortes nos conflitos atuais, tendência que pode ser vista desde 1980. Segundo ela, isso pode ser explicado pois desde o fim da Guerra Fria o apoio armamentista e financeiro vindo de países para grupos rebeldes é bem menor. "Os partidos guerreiros não têm o mesmo acesso a armas, tecnologia e dinheiro que eles tinham há 30 anos."
Fluxo contínuo
Nos anos de 1980 a 1990 houve um crescimento mais ou menos contínuo no número de conflitos violentos até que se atingiu um pico em 1992, com 52 conflitos altamente violentos. “Isso ocorreu por causa do declínio da União Soviética”, explica Lotta Mayers. "Depois disso, o número diminuiu muito até 1995, mas voltou a crescer em 2004. Os últimos cinco anos foram marcados por uma oscilação entre uma média de 30 a 40 conflitos muito violentos."
Metodologia
O HIIK diferencia três categorias de conflitos violentos: crise, crise grave e guerra. Crises são caracterizadas por uso esporádico da violência, ao passo que crises severas e guerras seriam uma resposta organizada com uso de violência sistêmica durante um longo período de tempo, causando intensa destruição. Crises severas e guerras, na metodologia do Instituto, podem ser agrupadas na categoria ‘conflitos muito violentos’.

Lobby do amianto gasta US$ 100 milhões no mundo

Uma rede mundial de grupos de lobby gastou quase US$ 100 milhões desde a metade dos anos 80 a fim de preservar o mercado internacional do amianto, carcinógeno conhecido que já tirou milhões de vidas e tem seu uso proibido ou restrito em 52 países, constatou o ICIJ (International Consortium of Investigative Journalists) depois de nove meses de investigação.
Com apoio de verbas públicas e privadas e a assistência de cientistas e governos simpáticos à causa, os grupos ajudaram a facilitar a venda de dois milhões de toneladas de amianto no ano passado, em sua maior parte a países em desenvolvimento. Ancorada pelo Chrysotile Institute, sediado em Montreal (Canadá), a rede se estende de Nova Delhi (Índia) à Cidade do México, passando pela cidade de Asbest, (Rússia). Sua mensagem é a de que o amianto pode ser usado em segurança sob condições "controladas".

Como resultado, o uso do amianto está crescendo rapidamente em países como China e Índia, o que leva especialistas em saúde a alertar sobre futuras epidemias de câncer de pulmão, asbestose e mesotelioma, um câncer maligno altamente agressivo que costuma atacar o revestimento dos pulmões. A OMS (Organização Mundial da Saúde) informa que 125 milhões de pessoas continuam a encontrar amianto em seus locais de trabalho, e a OIT (Organização Internacional do Trabalho) estima que 100 mil trabalhadores morram a cada ano de doenças relacionadas ao amianto. Outros milhares perecem de exposição ambiental ao material. James Leigh, diretor do Centro de Saúde Ocupacional e Ambiental na Escola de Saúde Pública de Sydney, Austrália, previu que haverá um total de cinco milhões a 10 milhões de mortes causadas por cânceres relacionados ao amianto até 2030, uma estimativa que ele considera como "conservadora".

"É totalmente antiético", disse Jukka Takala, diretor da Agência de Segurança e Saúde no Trabalho e antigo dirigente da OIT, sobre a campanha de promoção do uso do amianto. "É quase um crime. O amianto não pode ser usado de maneira segura. É claramente carcinógeno. Mata pessoas".

De fato, um painel de 27 especialistas formado pela Agência Internacional de Pesquisa do Câncer, da OMS, reportou no ano passado que "as provas epidemiológicas vêm mostrando associação cada vez maior entre todas as formas de amianto e risco ampliado de câncer de pulmão e mesotelioma".