terça-feira, 30 de agosto de 2011

Mesmo um título de dívida conjunto pode não salvar o euro

A experiência universal da administração de crises financeiras mostra que, quanto mais se espera para resolvê-las, mais cara sai a conta final. Na zona do euro, esse momento já chegou. Dois meses atrás se dizia que as piores coisas que poderiam acontecer seria a crise chegar até a Itália e a Espanha e que a recuperação econômica ficasse paralisada.

Agora a crise já se estendeu até a Itália e Espanha, e o crescimento na zona do euro perdeu força. O próximo ponto na sequência da tragédia seria um retorno da recessão. Não se trata de um cenário improvável. Christine Lagarde, a diretora-gerente do Fundo Monetário Internacional, avisou no fim de semana, com franqueza refrescante, que o risco de uma recessão é grande, e pediu a adoção de medidas urgentes.

A crise já ganhou força tão grande que torna obsoletos os mecanismos de resolução existentes. O Fundo Europeu de Estabilidade Financeira foi criado para tratar de países pequenos, como Grécia, Portugal e Irlanda; como mecanismo para proteger a Itália ou Espanha, é inútil. Se elevássemos seu teto de empréstimos para 2 trilhões de euros, por exemplo, a França correria o risco de perder sua classificação de crédito AAA. Isso, por sua vez, afetaria a capacidade de conceder crédito do próprio FEEF, que é igual à parcela dos países de classificação AAA.

Se realmente quisermos garantir uma proteção para a Itália ou Espanha, a única solução de longo prazo é o que é conhecido no jargão legal como obrigação conjunta e plural -em outras palavras, um título de dívida europeu. Não há como a Alemanha avalizar a Itália ou a França avalizar a Espanha. O problema se tornou tão grande que as únicas garantias dignas de crédito são as conjuntas.

Infelizmente, um título de crédito europeu não é algo que seja possível instituir em uma reunião de emergência à meia-noite de amanhã. Ele requer instituições novas. Teria que ser uma medida em vários passos, como foi a adoção do próprio euro na década de 1990. O título de dívida europeu exigiria uma mudança nos tratados europeus e modificações nas Constituições de vários países.

No esquema normal das coisas, o Conselho Europeu criaria um comitê que passaria um ou dois anos traçando um plano-mestre. Isso seria seguido por uma conferência intergovernamental e uma cúpula dramática. E depois disso o plano levaria anos para ser implementado.

Uma crise pode fazer com que se passem por cima de alguns desses procedimentos, mas para isso seria necessária liderança política, algo que, lamentavelmente, está faltando. Basta olhar para o desentendimento patético entre membros da zona do euro em torno do acordo bilateral da Finlândia com a Grécia para obter garantias para a parte finlandesa do próximo pacote grego. Mesmo agora, a zona do euro continua a brigar sobre os detalhes de um pacote que, essencialmente, é irrelevante para seu futuro.

Imagine a reação se fosse pedido à Alemanha, Holanda ou Finlândia que aprovassem um título de dívida europeu amanhã. Na semana passada, Angela Merkel, a chanceler alemã, excluiu essa possibilidade todos os dias. O primeiro-ministro da Holanda, Mark Rutte, disse que para isso seria preciso uma união fiscal. Jyrki Katainen, o premiê finlandês, também se opôs à ideia, mas prevê que a questão volte a ser discutida no outono. Wolfgang Schäuble, o ministro das Finanças alemão, disse que uma união política plena seria um pré-requisito para um título de dívida europeu --uma outra maneira de dizer "não".

Será que estão todos blefando? Apenas até certo ponto. Sei que os observadores já ficaram cínicos, especialmente em relação às reservas expressas publicamente por Angela Merkel, que vem se opondo a cada medida adotada na crise, desde o primeiro empréstimo à Grécia até a extensão do mandato do FEEF --apenas para ceder mais tarde. O título de dívida europeu não seria apenas a etapa seguinte nesta brincadeira de negar primeiro e render-se depois? Será que Merkel não vai suavizar o tom depois de o Bundestag acordar mudanças no FEEF?

Sei que há pessoas próximas a Merkel e Schäuble que concordam que um título de dívida europeu seria a única solução para esta crise. Eu não me surpreenderia se elas já tivessem até traçado um plano de emergência. Mas a política está limitando sua ação. Merkel tem uma dificuldade grande pela frente--conseguir uma maioria parlamentar em favor da extensão do FEEF. Ela provavelmente vencerá essa batalha, mas é possível que não vencesse uma briga por um título europeu. A coalizão dela provavelmente seria desfeita.

Portanto, embora eu não consiga visualizar como a Grécia ou Itália poderão permanecer na zona do euro por tempo indeterminado sem um título de dívida europeu, acho igualmente difícil visualizar a Alemanha, Finlândia ou Holanda concordando com essa proposta. Logo, alguém vai ter que ceder. Um título europeu pequeno, cobrindo apenas uma parte pequena da dívida soberana, parece um quebra-galho sedutor. Mas não resolveria a crise. Talvez um governo alemão liderado por sociais democratas aceitaria o título europeu após as eleições previstas para 2013. Mas isso seria tarde demais. Quem sabe a próxima etapa da crise seja tão grave que todo o mundo fique tão assustado que aceite a criação de um título europeu como sendo dos males o menor. Isso poderia funcionar, mas não é o cenário que desejaríamos.

No curto prazo, o único consolo é o programa de aquisição de títulos do Banco Central Europeu por um prazo prolongado, programa esse que agora chega a bem mais de €100 bilhões. Pelo que ouvi, vários membros do conselho de direção do BCE votaram contra. Isso significa que o consenso é frágil e pode não se sustentar para sempre.

A incerteza dupla em torno dos títulos do euro e do programa de aquisição de papéis do BCE sugere que os investidores estejam agindo com racionalidade absoluta ao apostarem contra a zona do euro. Isso significa que a crise vai continuar e que vai se agravar e ficar mais cara. E, a não ser que ocorra uma inversão dramática e muito pronta na resposta política, mesmo um título de dívida europeu pode não funcionar.

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