Especialistas debatem os efeitos de medidas para reduzir déficits no cenário global. Por Fernanda Dias
A redução da dívida, ou desalavancagem, é um processo inevitável para muitos países nos próximos anos. E de sofrimento. Qualquer consumidor que precise cortar gastos tem que fazer escolhas. Com os governos não é diferente. Aumento de impostos, diminuição nos gastos sociais e alteração nas regras de aposentadorias são apenas algumas das tradicionais estratégias para reduzir o déficit que deverão estar no centro de grandes polêmicas.
Para o economista e professor do Ibmec-Rio Gilberto Braga, os próximos anos deverão ser de ajustes econômicos e de uma retomada lenta e gradual das economias globais. Ele lembra que os problemas de 2008 foram mais sérios do que a princípio se poderia prever, e suas consequências ainda estão presentes nos Estados Unidos e em diversos países da União Europeia: “A desalavancagem, entendida como a diminuição da especulação com ativos financeiros, principalmente com derivativos, deve ocorrer. A crise global exige dos países e das empresas em geral um grau mais evoluído de governança corporativa, com maior transparência, prestação de contas e sustentabilidade”.
O doutor em ciência política pela universidade norte-americana Johns Hopkins e professor de metodologia do Iuperj, Antônio Botelho, também acredita que os governos, particularmente europeus e de países em desenvolvimento, serão mais cautelosos e procurarão controlar seus déficits: “Esse processo de redução da dívida poderá se acelerar caso a pressão dos custos dos alimentos provoque uma aceleração no crescimento da inflação. Já o governo norte-americano continuará expandindo sua dívida, uma vez que há suficiente liquidez internacional e corporativa para financiá-la. Com a aprovação da elevação do teto da dívida, eles devem continuar perseguindo programas de estímulo econômico no sentido de relançar o crescimento da economia”, afirma ele.
A professora do curso de Relações Internacionais da ESPM-RJ Andréa Ribeiro também defende que, embora pareça haver uma forte pressão em direção à desalavancagem aliada a um ajuste fiscal no sistema internacional, começam a ganhar força discursos que questionam esse modelo aparentemente hegemônico: “Esse discurso é fruto de pressões políticas de órgãos como a União Europeia e o Fundo Monetário Internacional. Por outro lado, deve haver em alguns Estados a busca por novas soluções para a crise econômica e financeira internacional e o questionamento da proposta ortodoxa da desalavancagem”.
Andréa chama atenção para o fato de medidas conservadoras – como o corte nos gastos sociais e o ajuste fiscal – já estarem apresentado impactos problemáticos para a população de diferentes países: “O corte nos gastos públicos não gerou crescimento econômico e aumento do nível de emprego em vários países, como Grécia, Espanha e Irlanda. Na Grécia, a população se revolta e questiona o ajuste fiscal rigoroso como única forma de combate à crise. A medida conservadora começa a ser questionada em vários lugares, abrindo espaço para o desenvolvimento de novas propostas de solução para a crise financeira internacional”.
Segundo Gilberto Braga, esse cenário que se configura em muitos países deverá estimular o crescimento de investimentos em novas tecnologias, que possam aumentar a produtividade e desenvolver insumos e matérias primas alternativas. Ele acredita ainda que os gastos com educação tendem a ser impulsionados e que haverá um intenso debate sobre o papel do Estado, principalmente em relação aos gastos sócias.
“A tendência a se ter um Estado mais controlador e menos gastador passa, necessariamente, por aumentos de tributos e por revisão de políticas sociais. A população deverá pressionar os governos, e é razoável supor que haverá muitas danças das cadeiras nos partidos políticos que hoje estão no poder em todo o mundo”, afirma o professor do Ibmec-Rio.
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