quarta-feira, 8 de junho de 2011

Morar no Brasil está cada vez mais caro

Conversas nos jantares sobre preços de imóveis, jornais recheados de anúncios de luxuosas visitas abertas a novos empreendimentos da área imobiliária, e propriedades sendo vendidas pelo dobro do preço cobrado há três anos: recentemente, São Paulo, a capital brasileira do mundo dos negócios, se assemelha muito à Londres e Nova York em seus tempos pré-crise. A febre imobiliária no Brasil e em outros países da América Latina faz com que muitos temam que o renascimento econômico da região possa ser tornar mais exuberante do que o necessário. Mas o boom imobiliário é baseado no aumento da prosperidade, e não na criação de dívidas excessivas.

Em partes das grandes cidades brasileiras, preços de imóveis certamente dispararam. O IBOPE Inteligência, um instituto de pesquisa que realiza o primeiro índice estatístico de valores imobiliários do país, diz que, em 2010, o preço médio de um apartamento novo em São Paulo aumentou em 25%, e que esse número pode ser muito maior nas áreas mais luxuosas. Agentes imobiliários afirmam que preços em certas áreas tiveram um aumento de 80% nos últimos três anos; e que em áreas semelhantes do Rio de Janeiro, impulsionadas pela descoberta de enormes reservas de petróleo na costa do estado e a missão de sedia os Jogos Olímpicos de 2016, dobraram de preço.

O boom imobiliário está sendo impulsionado por um impressionante aumento no número de potenciais compradores. Nos últimos oito anos, o número de famílias brasileiras com rendas superiores a dez salários mínimos teve um aumento de mais de 50%, e hoje está próximo dos 18 milhões. O poder aquisitivo da nova classe média foi intensificado por uma maior disponibilidade de hipotecas.

Até as recentes leis que dificultaram a execução de hipoteca (ou impossível, quando o devedor estava endividado) empréstimos sobre a propriedade eram considerados mau negócio, e a maioria das casa era construída pelos donos ou paga em dinheiro. Em 2005, a dívida hipotecária equivalia a meros 1,4% do PIB. Mas aquele foi o ano no qual mudanças legais permitiram que os provedores de empréstimos permanecessem como donos de uma propriedade até depois do pagamento final, fazendo com que a execução de hipoteca fosse mais direta. O total de empréstimos assegurados com propriedades se aproxima dos 5% do PIB – um valor ainda pequeno, mas impressionante para o período de cinco anos.

Restrições na oferta, em especial, a escassez de terras nos principais pontos econômicos, também estão fazendo com que os preços disparem. Cushman and Wakefield, uma consultora imobiliária, diz que os aluguéis de escritórios no Rio de janeiro agora são os mais altos nas Américas, já que os negócios se apressam para se alojar naquele que será o centro de uma das maiores economias petrolíferas. Seus empregados precisarão de um lugar para viver – mas as áreas desejadas da cidade estão cercadas pelas montanhas de um lado e pelo mar do outro. Em São Paulo, é o trânsito caótico, e não a geografia, que leva o crescente número de super-ricos da cidade a buscar locais mais centrais. Como era de se esperar, os melhores lugares estão cada vez mais caros.

Os preços de outros espaços também estão subindo. O Minha Casa, Minha Vida, ambicioso projeto de moradia do governo que dará financiamento a um milhão de casas de baixa renda, e mobiliza boa parte da força de trabalho no setor de construção, além de aumentar os salários dos trabalhadores da área. Grandes projetos de infraestrutura, como portos e ferrovias no norte do país, competem por tudo, desde operadores de guindastes a cimento e aço. O índice oficial dos preços de construção está à frente da inflação geral e a diferença entre eles é cada vez maior.

O Brasil não é o único país latino-americano dando sinais de exuberância imobiliária. Outro exemplo é o Peru, outro recente vencedor na luta contra a hiperinflação e um dos abençoados pelo boom de commodities. Agentes imobiliários em Lima dizem que casas nos bairros litorâneos mais sofisticados recentemente dobraram de valor e o custo de terrenos para construção de edifícios triplicou. A Colômbia e o Panamá vivem momentos semelhantes.

O terrível exemplo de outros países com relação ao que pode acontecer em sequência fez com que muitos temessem uma crise imobiliária latino-americana. Mas – pelo menos por enquanto – os novos e mais latos valores parecem estáveis. Em primeiro lugar, por que eles parecem restritos aos pontos mais luxuosos: as melhores áreas nas maiores cidades de economias emergentes, ou próximas às megaconstruções. De acordo com Antônio Ruótolo, do IBOPE Inteligência, Recife, no pobre nordeste brasileiro, pode registrar os maiores aumentos nos preços. A razão para isso são os US$ 16 bilhões gastos no Porto de Suape, que incluirá uma refinaria de petróleo, fábricas petroquímicas e uma série de renovações, atraindo dezenas de milhares de pessoas para a área. Da mesma forma, a efervescência panamenha é consequência da renovação de seu famoso canal.

Em qualquer um dos casos, os dias mais importantes provavelmente já passaram, diz Guilherme Vilazante do Barclays Capital. A crise de crédito de 2008 faz com que muitas empreiteiras parassem de comprar terras e interrompessem projetos, que foram retomados no fim de 2009. Foi esse intervalo que levou ao grande aumento nos preços nos últimos dois anos – mas vários projetos adiados estão prestes a entrar no mercado. Em breve, acredita Vilazante, os imóveis mais sofisticados estarão sendo avaliados em um índice semelhante ao dos imóveis destinados à população de menor renda, mais próximos dos custos de construção.

Mesmo uma grande queda nos preços não terá o mesmo efeito devastador na América Latina, que o visto nos Estados Unidos. Novas hipotecas estão surgindo de maneira cada vez mais rápida – com um aumento de 50% ao ano no Peru, e números ainda maiores no Brasil. Mas o volume total de hipotecas é muito baixo: o Chile tem o Mercado mais desenvolvido da região, totalizando cerca de 20% do PIB. Os Estados Unidos, por sua vez, entraram na crise de crédito com hipotecas em dois terços de suas residências, e uma dívida de financiamento imobiliário de US$ 10, 6 trilhões, ou 72% do PIB. A subscrição na região é tímida: as relações de empréstimo ao valor são tipicamente menores que *0%, e os brasileiros não conseguem hipotecas em segundas casas.

Além da badalação em torno do mercado de luxo, a realidade latino-americana é a de uma duradoura escassez de propriedade. O peru tem um déficit imobiliário de cerca de 900 mil pessoas; as estimativas no Brasil apontam números entre 5 e 7 milhões. Muitos governos na região estão fragmentando o problema, oferecendo empréstimos imobiliários à população de baixa renda. Mas o impacto no mercado é limitado pelos apertados orçamentos governamentais. Pode-se afirmar que os recentes aumentos nos imóveis mais luxuosos são simplesmente uma correção depois de muitos anos nos quais casas de qualidade poderiam ser obtidas de forma barata pelas poucas pessoas na região capazes de pagar em dinheiro. Agora elas têm competição.

O novo rumo da indústria automobilística

Quando os automóveis foram lançados no mercado havia centenas de fábricas espalhadas pelos Estados Unidos e outras milhares ao redor do mundo. Hoje, alguns anos depois, a indústria automobilística é dominada por apenas algumas dezenas de empresas globais. Entretanto, as mudanças tecnológicas podem ajudar tanto as empresas já estabelecidas no mercado, quanto facilitar a entrada das recém-chegadas. Há fortes sinais de que isso já esteja acontecendo no setor automotivo.

Usando as últimas tecnologias em veículos elétricos e novas técnicas de fabricação, a Tesla nasceu no Vale do Silício, com carros esportivos elétricos. A Fisker, outra nova empresa californiana, está construindo um luxuoso carro híbrido, chamado Karma. Diversas outras empresas têm projetos em andamento que vão de carros elétricos para transporte regional à conversão de veículos já existentes. Esta semana, uma outra pequena empresa revelou não apenas um, mas cinco protótipos entre seus E-4 Coupe, desenvolvido e construído com um orçamento de apenas US$ 1,2 milhão.

“Muitas das maiores montadores se interessaram”, afirma Simon Dowson, diretor da empresa. “Eles se encantaram com o que fizemos”. A Delta Motorsport, responsável pelo protótipo, foi criada em 2005 por Dowson e seu diretor técnico, Nick Carpenter. Eles possuem apenas dez empregados. Mas estão localizados no circuito da corrida de Silverstone, na Inglaterra, o que fornece uma breve ideia de como conseguiram o feito.

A empresa deseja aplicar a mesma técnica usada na indústria de corridas de automóveis para produzir carros esportivos elétricos. Eles criaram o design, a engenharia e o trabalho de montagem, mas terceirizaram a manufatura de pequenas peças para o que Dowson descreve como o “Motorsport Valley”, uma região ao longo do centro da Inglaterra. É onde muitas empresas de engenharia automotivas e equipes de Fórmula 1 estão instaladas.

O Delta E-4 Coupe, como todos os seus protótipos, ainda precisa ser trabalhado. Mas o carro é rápido e tem um design impressionante, com portas em tesoura. Os protótipos, equipados com uma pequena bateria menor do que a bateria de lítio, de 48 kWh, planejada para a versão mais rápida, ainda não são capazes de entregar o que a Delta espera: ir de 0 a 60 milhas por hora em menos de cinco segundos, percorrendo em média 200 milhas em uma única carga. No entanto o carro pode ser completamente recarregado dentro de oito horas, após conectado a uma rede convencional de energia.

Algumas partes do carro foram montadas utilizando fibras de carbono, outras partes com fibra de vidro. Estes materiais também podem ser usados em um processo de produção de uma fábrica modelo, explica Dowson. Um número alto de montadoras já procura maneiras de realizar uma produção em massa de carros construídos a partir deste tipo de material. Entre elas, a BMW, que está desenvolvendo uma linha de veículos elétricos urbanos.

A manufatura destes componentes não requer grandes investimentos em pensas enormes para selar partes de metal. A BMW também analisa a possibilidade de produção via satélite, assim as partes do carro poderiam ser construídas em mais de uma localização. Ao contrário da Delta, entretanto, a BMW ainda precisa mostrar protótipos funcionais.

Empresas levam suas fábricas de volta aos Estados Unidos

“Quando clientes consideram a hipótese de abrir outra fábrica na China, eu os imploro para que considerem locações alternativas”, diz Hal Sirkin, do Boston Consulting Group (BCG). “Será que eles pensaram, por exemplo, no Vietnã? Ou será que chegaram a tentar produzir algo nos Estados Unidos?” Quando seus clientes são companhias norte-americanas querendo construir fábricas para atender a clientes norte-americanos, Sirkin cada vez mais sugere que eles fiquem nos Estados Unidos, não por razões patrióticas, mas porque a economia da globalização está passando por uma rápida transformação.

A arbitragem trabalhista – tirar proveito de salários mais baixos no exterior, especialmente nos países mais pobres – nunca foi a única força empurrando as multinacionais pra fora de seus países de origem, mas certamente teve uma grande importância. Agora, no entanto, com o boom das economias emergentes, os salários estão subindo. O pagamento aos operários chineses, por exemplo, teve um aumento de 69% entre 2005 e 2010. Logo, os ganhos da arbitragem trabalhista começam a diminuir, em alguns casos tornando-se irrelevantes, de acordo com um novo estudo do BCG.

“Em algum momento por volta de 2015, a indústria que produz para o consumo norte-americano será indiferente quanto à localização de suas fábricas, seja nos Estados Unidos ou na China”, diz Sirkin. Esse cálculo parte do princípio que o crescimento salarial continuará por volta dos 17% anuais na China, e permanecerá relativamente lento nos Estados Unidos, e que o crescimento da produtividade continuará seguindo as tendências atuais em ambos os países. O estudo também prevê uma apreciação modesta do yuan em relação ao dólar.

O ano de 2015 não está tão longe. Fábricas demoram a ser construídas, e podem continuar a produzir engenhocas por anos. Portanto, empresas que planejam hoje a produção do amanhã estão voltando seus olhos cada vez mais para os países de origem. O BCG lista diversos exemplos de empresas que já levaram fábricas e trabalhos de volta aos Estados Unidos. A Caterpillar, uma fabricante de veículos agrários, está levando parte de sua produção de retro escavadeiras de volta ao Texas. A Sauder, uma fabricante norte-americana de móveis, também esta trazendo de volta a produção de países de salários baixos. A NCR levou de volta a produção de caixas eletrônicos para a Geórgia (o estado norte-americano, não o país ocasionalmente invadido pela Rússia). No ano passado, a Wham-O recuperou metade da produção de seus frisbees e bambolês em solo norte-americano, diminuindo sua produção na China e no México.

O BCG prevê um “renascimento da manufatura” nos Estados Unidos, mas há razões para o ceticismo. O surto de produção manufatureira do ano passado foi motivado pela necessidade de recuperar terreno perdido durante a crise financeira. Além disso, algumas das novas fábricas do país foram agraciadas com subsídios que podem, em breve, se esvair. Mas ainda assim, a nova economia da arbitragem trabalhista fará a diferença.

Ao invés de uma infinidade de fábricas voltando para o país, “salários mais altos na China podem fazer com que algumas empresas que iam diminuir suas operações nos Estados Unidos mantenham suas opções em aberto, mantendo suas fábricas no país”, diz Gary Pisano, da Harvard Business School. O anúncio, feito no dia 10 de maio, de que a General Motors (GM) irá investir US$ 2 bilhões para criar mais 4 mil empregos em 17 fábricas sustenta a visão de Pisano. A GM provavelmente não está criando muitos empregos novos, mas mantém nos Estados Unidos empregos que numa situação diferente, poderiam ter sido exportados.

Mesmo que salários na China disparem, algumas multinacionais terão dificuldade em trazer tantos empregos de volta para os Estados Unidos, afirma Pisano. Em algumas áreas, como em produtos eletrônicos, o país já não tem mais a base de oferta ou a infraestrutura necessárias. Empresas não perceberam, quando levaram suas operações para países de salários baixos, que algumas manobras seriam “praticamente irreversíveis”, diz Pisano.

Muitas multinacionais continuarão a construir a maior parte de suas novas fábricas em mercados emergentes, não para exportar seus produtos de volta, mas sim porque nesses mercados, a demanda está crescendo rapidamente. E empresas de outros países ricos provavelmente continuarão aproveitando a oportunidade de arbitragem trabalhista por mais tempo que as norte-americanas, diz Sirkin. Seus custos trabalhistas são mais altos que os dos Estados Unidos e permanecerão dessa forma a menos que o euro caia dramaticamente em relação ao yuan.

Não há lugar como o lar

A oportunidade da arbitragem trabalhista está desaparecendo cada vez mais rápido na manufatura básica na China. Outros setores e países são menos afetados. Como Pankaj Ghemawat, autor de “World 3.0”, destaca, apesar do rápido aumento salarial na Índia, sua indústria de softwares e terceirização de escritórios deve manter sua vantagem de custo pelos próximos anos, também graças ao seu rápido crescimento de produtividade.

Ainda assim, um número cada vez maior de multinacionais, especialmente nos países ricos, começam a ver os benefícios de manter porções cada vez maiores de sua produção perto de casa. Para muitos produtos, o trabalho é uma porção cada vez menor dos custos totais. E longas e complexas cadeias de fornecimento se mostram mais arriscadas do que muitas firmas perceberam. Quando os preços do petróleo disparam, o transporte se torna mais caro. Quando uma epidemia como a gripe aviária atinge a Ásia, ou quando um terremoto atinge o Japão, cadeias de fornecimento são interrompidas. “Houve uma clara redução das cadeias de fornecimento, especialmente aquelas com 30 ou 40 etapas no processo”, diz Ghemawat.

As empresas também estão tentando reduzir os custos de seu armazenamento. Importações da China para os Estados Unidos podem exigir que uma companhia utilize 100 dias de armazenamento. Esse fardo pode ser consideravelmente reduzido se os bens forem fabricados num local mais próximo (que poderia ser o México ao invés dos Estados Unidos).

As empresas estão pensando de maneira mais sofisticada a respeito de suas cadeias de fornecimento. Os chefes já não partem mais do princípio de que devem sempre produzir nos países com salários mais baixos. Cada vez mais, faz sentido produzir em uma variedade de locais, incluindo os Estados Unidos.

Brasil se prepara para guerra cibernética

O Brasil está começando a investir pesado na defesa do seu espaço cibernético. O Exército brasileiro vai inaugurar no segundo semestre deste ano o Centro de Defesa Cibernética (CDCiber), onde militares ficarão encarregados de proteger as redes das Forças Armadas e do governo.

Serão aproximadamente 100 militares que ficarão instalados em um prédio nos arredores de Brasília. O centro vem sendo preparado há cerca de um ano para integrar as ações de defesa cibernética do Exército, Marinha e Aeronáutica e será equipado com simuladores para exercício de guerra cibernética, laboratório para análise de “cyber armas” e centro de tratamento de incidentes.

“O mundo mudou, e hoje uma equipe de dez pessoas mal-intencionadas, com grande conhecimento, pode fazer estragos enormes em estruturas sofisticadas”, disse ao jornal O Estado de S.Paulo o coronel do Exército Luis Cláudio Gomes Gonçalves, que coordena a implantação do CDCiber.

Usinas solares no Marrocos deverão fornecer 15% da energia da Europa

No meio de um deserto de terra pedregosa surge, como um oásis, um imenso complexo de metal e vidro, escaldado pelo Sol: a usina termossolar de Ain Beni Mathar. Um concentrado de tecnologias nesta região do nordeste do Marrocos, que por muito tempo permaneceu à parte do desenvolvimento do país.

Alinhadas sobre 88 hectares, 62 fileiras de 300 metros de concentradores solares focalizam a luz sobre tubos de óleo calorífero, levado a quase 400 graus Celsius. O calor é transferido para um circuito de água, para aumentar o rendimento de uma turbina a vapor acionada pela combustão de gás natural. O Sol contribui com 20 megawatts (MW) para a potência de 472 MW dessa unidade híbrida, uma das primeiras do tipo no mundo.

Construída e operada pela empresa espanhola Abengoa, a instalação foi inaugurada em maio de 2010. “Ela fornece hoje 13% do consumo elétrico do país”, diz um engenheiro. “E permitiu a criação de 60 empregos diretos e de 200 empregos indiretos, 90% dos quais são ocupados por marroquinos”. A usina de Ain Beni Mathar é a ilustração das novas metas energéticas estabelecidas pelo Marrocos, preocupado em explorar melhor seus recursos renováveis. A começar pelo Sol e pelo vento, do qual ele dispõe em abundância.

Ao mesmo tempo, o país quer servir de “cabeça de ponte” para o projeto europeu Desertec, que visa fornecer ao Velho Continente 15% de sua eletricidade a partir de usinas solares e eólicas espalhadas pelo Saara. Tendo, como corolário, o projeto Medgrid (ex-Transgreen), que deve realizar a interconexão elétrica entre as duas margens do Mediterrâneo. “Nosso potencial é considerável”, explica a ministra das Minas, Energias, Água e Meio Ambiente, Amina Benkhadra. “Podemos ao mesmo tempo atender nossa demanda energética e permitir à Europa que atinja sua meta de 20% de energia renovável . Todos saem ganhando”.

O reino acaba de ser escolhido pelo consórcio Desertec para a construção de uma primeira usina solar de 500 MW, cuja maior parte da produção será exportada para a Alemanha.

Quase 50 mil empregos
Longe de serem somente uma moda, essas tecnologias verdes, no centro do Congresso da Energia que ocorreu no dia 31 de maio em Oujda, sob a presidência do rei Mohammed 6º, respondem a uma necessidade econômica e política. O reino, quase totalmente desprovido de jazidas fósseis, importa 97% de sua energia.

Para o gás natural, ele recebe royalties em espécie sobre a passagem do gasoduto Magreb-Europa, mas ele compra da Arábia Saudita e do Iraque seu petróleo, cuja conta pesa nas contas públicas. A questão é “garantir nosso abastecimento”, afirma Benkhadra. Mais ainda pelo fato de que a demanda será três vezes maior daqui a vinte anos.

Então um ambicioso programa solar foi lançado. Até o final da década serão construídas, em cinco pontos, enormes usinas termossolares (com um componente fotovoltaico), com uma potência total de 2.000 MW. A primeira, com capacidade de 500 MW, deve entrar em funcionamento em 2015 em Ouarzazate.

Quatro consórcios administrados por empresas espanholas, italianas, sauditas e egípcias, foram selecionados para a primeira fase. As empresas francesas, afirma a ministra, não atenderam às exigências da licitação, que incluía capacidades de armazenamento de energia.

Um parque eólico, também de 2.0000 MW, será espalhado por todo o território. Em 2020, a energia solar, a eólica, mas também a hidráulica deverão representar , cada uma com um terço, 42% da potência elétrica instalada, cobrindo 25% da demanda em eletricidade do país.

Essa grande obra tem um custo: mais de 6 bilhões de euros para a energia solar, quase 2,5 bilhões para a eólica. O arranjo financeiro requer muitos investimentos estrangeiros, uma vez que as empresas aceitas custearão a construção das instalações, cujos kilowatts-hora serão revendidos para a Agência Nacional de Eletricidade marroquina, com tarifas garantidas por 25 anos.

“Esses projetos devem exercer um papel estrutural para as regiões, contribuindo para seu desenvolvimento industrial e técnico”, ressalta Mustapha Bakkoury, presidente da Agência Marroquina de Energia Solar. São esperados quase 50 mil novos empregos qualificados, na área de energia.

O Marrocos também tem feito contatos bilaterais com a França, a Espanha, a Itália e Portugal, pela União para o Mediterrâneo e seu Plano Solar. No início de maio, o ministro francês da Indústria, Eric Besson, anunciou que uma experiência-piloto de exportação de eletricidade do Marrocos para a França – por meio da linha submarina de 1.400 MW que liga o Marrocos e a Espanha - , será conduzida no outono de 2011.

Uma forma de testar, no plano não somente técnico, mas também jurídico e diplomático, o futuro mercado transmediterrâneo dos elétrons verdes