terça-feira, 26 de julho de 2011

Uma nova Guerra Fria

O sétimo encontro ministerial do Conselho do Ártico em maio tinha tudo para ser um evento trivial, focado na assinatura de um novo acordo de busca e resgate, e a passagem da presidência do Conselho para a Suécia. Mas o clima em Nuuk ganhou um novo tom com a primeira visita dos Estados Unidos ao fórum, representada pela presença da Secretária de Estado, Hillary Clinton; do secretário do Interior, Ken Salazar, e de uma série de outros pesos pesados da política norte-americana.

A mensagem foi clara: O Estados Unidos estão se colocando no centro do debate sobre o futuro do Polo Norte, em um momento no qual uma nova corrida por petróleo e minerais acontece, já que o aquecimento global facilita a extração. E como de costume, a suave diplomacia norte-americana foi acompanhada de uma boa dose de simbolismo pesado. Pouca semanas antes do encontro, dois submarinos nucleares foram enviados para uma patrulha, 150 milhas ao norte de Prudhoe Bay, no Alasca.

Enquanto isso, a Rússia – uma das oito nações do Conselho – parecia contente em afastar dos planos qualquer possibilidade de que países como A China pudessem ganhar status de observadores no Conselho. A patrulha da marinha norte-americana coincidiu com relatos de que Rússia estaria aumentando os testes com mísseis na área, e com a mudança da principal base militar norueguesa para o Polo Norte. A China, nesse meio tempo, começou a cortejar países e regiões como a Groenlândia, ricos em minerais terrestres raros, usados na construção de telefones celulares e equipamento de última tecnologia. Os interesses comerciais no Ártico também são atrapalhados pela falta de um acordo que esclareça quem é exatamente dono do quê. Muitos países enviam reivindicações de terra conflitantes para as nações Unidas, com base na Convenção das Leis do Mar – um tratado até hoje nunca assinado pelos Estados Unidos.

“Corrida armamentista pode estar começando”

O Canadá e outros também se incomodaram quando Artur Chilingarov, um veterano explorador russo fincou uma bandeira no solo oceânico do Ártico, em 2007. na ocasião, ele disse aos repórteres que sua missão era provar que o Ártico pertence à Rússia. “Devemos provar que o Polo Norte é uma extensão do território russo”. O Canadá encarou a manobra de Chilingarov como uma provocação, mas Moscou tratou de colocar panos quentes sobre a situação, insistindo que tudo não passava de um gesto de um cientista contratado por empresas privadas. Curiosamente, Chilingarov – um membro do Parlamento russo – ganhou, no ano seguinte, o título de Herói da Federação Russa.

Preocupações com uma nova Guerra Fria levaram acadêmicos como Rob Huebert, professor de ciência política na Universidade de Calgary a alertar em um recente estudo para o Instituto Canadense de Defesa e Relações Exteriores que “uma corrida armamentista poderia estar começando”.

Huebert afirma que ouviu o primeiro-ministro russo, Vladimir Putin, falando sobre a necessidade da criação de uma “zona de paz” no Ártico, mas que também muitas ações no sentido contrário. “O valor estratégico da região está crescendo, e com isso, cada Estado irá agregar um valor maior a seus interesses nacionais na região. Os Estados do Ártico podem estar falando em cooperação, mas estão se preparando para um conflito”.

“Por enquanto as disputas foram resolvidas de maneira pacífica”, afirmou o almirante James Stavridis, comandante supremo da OTAN na Europa. “Mas as mudanças climáticas podem alterar esse equilíbrio nos próximos anos, dando lugar a uma disputa motivada pelas tentações da exploração de recursos naturais mais acessíveis”. Stavridis crê que unidades militares, como as guardas-costeiras, têm um papel importante na coordenação internacional da região, especialmente para assistência especializada aos interesses comerciais e de outras naturezas. “Os interesses em sequência e as consequências dos efeitos do aquecimento global deveriam fazer com que os líderes globais economizassem, e unificassem seus esforços para garantir que o Ártico permaneça como uma zona de cooperação – ao invés de encarar a região como uma zona de competição, ou pior, uma zona de conflito”, completou o almirante.

Huebert afirma que além de abrir um centro de operações de alta tecnologia na montanha de Reitan, no extremo norte da Noruega, o governo de Oslo também está gastando quantias até então inéditas em novos equipamentos militares, que incluem cinco fragatas Fridtjof Nansen, de última geração. A classe de navios é batizada em homenagem ao famoso explorador polar, o que talvez indique os planos da marinha norueguesa. Já o ex-ministro de relações exteriores do Canadá, Lawrence Cannon, se mostrou confiante de que seu país irá ficar com o território. “Vamos exercer nossa soberania no Ártico”, disse ele a seu equivalente russo em Moscou.

Mas os otimistas dizem que os temores são exagerados e apontam desenvolvimentos positivos como o acordo de fronteiras mutuamente firmado entre a Rússia e a Noruega, na divisão do Mar de Barents, e a parceria entre russos, noruegueses, norte-americanos e britânicos, que, discretamente, trabalha para tirar de circulação os submarinos nucleares e busca resolver outros problemas de poluição radioativa na península de Kola e na região de Arkhangelsk.

Momento é ideal para resolução de conflitos

No entanto, Paul Berkman, diretor do programa de geopolítica do Oceano Ártico no Instituto de Pesquisa Polar Scott, acredita que a enorme quantidade de livros e reportagens apresentando potencias problemas na região não pode ser ignorada. “É importante se perguntar porque essas manchetes alarmantes e alarmistas estão sendo escritas. Podem restar assuntos mal resolvidos da era da Guerra Fria”. Ele afirma que é necessário promover a cooperação e prevenir o conflito. “Não lugar para complacência nessa questão, e é importante aproveitar enquanto as tensões estão baixas para tratar dos riscos de instabilidades políticas, econômicas e culturais que são consequências inerentes das mudanças ambientais no Oceano Ártico”.

Líderes da etnia inuit temem que as conversas sobre a industrialização e riquezas minerais no Ártico aumentem as tensões. Aqqaluk Lynge, ex-presidente do conselho do fórum de povos indígenas, o Conselho Circumpolar Inuit, se diz “nervoso” com os atuais desenvolvimentos. “Há um crescimento militar e um aumento na diplomacia dos megafones. Não queremos um retorno da Guerra Fria”.

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