terça-feira, 26 de julho de 2011

A ressurreição da manufatura norte-americana

Como muitos imigrantes, o australiano Andrew Liveris, chefe da Dow Chemical, compartilha do sonho americano. Mas agora ele teme que esse sonho esteja ameaçado. Liveris se tornou uma das principais vozes que pedem ao governo norte-americano que abrace a política industrial. Em julho do ano passado, a Dow lançou um plano para ressuscitar a manufatura norte-americana, que Liveris transformou em um livro, “Make it in America” (“Prospere na América”). No dia 24 de junho, o presidente Barack Obama o nomeou co-presidente do conselho de uma nova “Parceria Avançada de Manufatura”, que reúne governo, acadêmicos e homens de negócios para “traçar um mapa” rumo a um setor manufatureiro mais competitivo.

Liveris não está defendendo o protecionismo (Dois terços das receitas da Dow Chemical vêm de fora do país). Pelo contrário, ele quer que os Estados Unidos retomem a liderança na derrubada de barreiras comerciais, mas para isso, quer que que o governo desenvolva uma estratégia que permitas às empresas norte-americanas competirem com rivais estrangeiras. Outros países estão agindo como empresas, teme ele. A China e seus imitadores estão seguindo estratégias para criar empregos no setor manufatureiro, e os Estados Unidos também deveria se comportar como uma empresa, defende o chefe da Dow.

A empresa que ele tem em mente é, obviamente, a Dow. Outras empresas norte-americanas deveriam seguir os passos da Dow, se fastando da manufatura básica, rumo a uma espécie mais avançada que agrega mais valores. Se a Dow precisa de uma nova fonte de ingredientes básicos, ela se apoia principalmente em joint-ventures com empresas estrangeiras como a japonesa Mitsui. Mas seu foco principal são os elementos químicos que são usados para tudo, desde sistemas de purificação de água a telhas de tetos solares. A Dow tem centenas de produtos em seu arsenal, que irão explorar quatro “mega tendências”: energia limpa; saúde e nutrição; aumento do consumo nos mercados emergentes; e investimentos em transportes e infraestrutura.

Por décadas, a manufatura norte-americana deu lugar aos serviços. Liveris não acredita que isso seja desejável nem inevitável. A criação e a inovação caminham de mãos dadas, diz ele, e os empregos no setor manufatureiro têm um multiplicador maior (ou seja, cada emprego no setor cria mais empregos adicionais do que um emprego nos serviços). Nem todos os economistas concordam.
A imagem obsoleta do setor pode ter desencorajado os jovens norte-americanos, que deixaram de adquirir as habilidades necessárias para uma carreira na manufatura avançada, diz Liveris. “Norte-americanos costumam pensar nos empregos da manufatura como uma caricatura do que eles costumavam ser década atrás: empregos que exigem poucos talentos e menos pensamentos críticos”, resmunga ele. Fazer com que o país treine mais engenheiros e profissionais do ramo é uma peça-chave do plano.

Ele também acredita que os Estados Unidos devem se esforçar para atrair talento estrangeiro. Um bom começo, aponta Liveris, seria um aumento na emissão de vistos. Mais de um milhão de empregos nos ramos de ciência e tecnologia estarão disponíveis nos Estados Unidos em 2011, mas apenas 200 mil novos formandos terão as habilidades necessárias para preenchê-los. È por isso que engenheiros químicos estão entre os formandos mais bem pagos do mercado.

Subsídios “Made in USA”

Liveris repreende os reguladores por impor vários custos desnecessários nos negócios. Ele também quer que o país que o acolheu tenha uma das taxas corporativas mais baixas do mundo, como a registrada durante os anos 1980. Outras partes de seu plano são mais polêmicas. Ele quer que o governo ofereça maiores incentivos financeiros às empresas localizadas nos Estados Unidos, tornando o crédito fiscal de pesquisa e desenvolvimento permanente, e oferecendo isenções fiscais e benefícios para a construção de fábricas no país.
Isso é algo que a China já faz, observa Liveris. Muitas empresas norte-americanas deixaram o país para aproveitar benefícios financiados pelos contribuintes, e a Dow se beneficia enormemente. De acordo com Liveris, os termos de sua frutífera parceria com a China, ”não serão como nenhum que já tenha sido feito com uma nação”. A empresa já construiu um inovador centro de pesquisa e desenvolvimento nas cercanias de Xangai, criando produtos como a tinta que retira o formol do ar.

Empresas adoram receber dinheiro dos contribuintes. Se ele é um benefício, já é outra questão. Se os países competirem para oferecer os maiores subsídios, os principais vencedores podem ser os acionistas. É por isso que a União Europeia aplica pesadas restrições sobre o que chama de “ajuda estatal”.

Se Liveris está perturbado pela ideia de que os governos pequenos o considerariam um parasita, ele não demonstra. Os Estados Unidos precisam se livrar do pensamento de curto prazo que quase impediram sua transformação da Dow, afirma.

Em 2006, dois de seus principais executivos tentaram vender e empresa para a private-equity, e Liveris acredita que isso teria destruído a empresa. Em 2008, a crise financeira quase arruinou a compra da Rohm and Haas, outra firma do ramo de químicos. Liveris também reclama que o governo norte-americano “empaca a cada dois anos” com o ciclo eleitoral.

Ainda assim, Liveris diz que está otimista. “Esse país vai bem quando a crise paira no ar. Estamos reconhecendo que a escassez de empregos é uma crise. Se soarmos o sinal de alarme, podemos passar para a fase de soluções” Ele tem a solução certa? Comerciantes livres e outros do setor manufatureiro aplaudirão uma parte, por menor que seja, desse cenário. Já os contribuintes podem não ter muitas palmas.

Nenhum comentário:

Postar um comentário