A criação de um departamento responsável pela proteção e segurança claramente não fez o bastante para mitigar as vulnerabilidades enfrentadas pela instituição*
Por muitos anos a ONU se esforçou para se apresentar ao mundo como uma instituição internacional imparcial dedicada a ajudar as pessoas ao redor do mundo. Mas a explosão de um carro-bomba num complexo da ONU promovida na última sexta-feira, 2, por uma organização terrorista islâmica chamada Boko Haram, em Abuja, Nigéria, matando 23 e ferindo ao menos 75, foi um lembrete cruel que, não importa o quanto a ONU se esforce para ser neutra, muitos, especialmente no mundo islâmico, encaram-na como procuradora das potências ocidentais. Com efeito, para muitos grupos determinados a instaurar o caos, a ONU se tornou sinônimo dos Estados Unidos. E isto é problemático para a Organização, dado que suas instalações são muito menos seguras do que as bases militares e embaixadas norte-americanas em território estrangeiro. Como a maior parte dos terroristas são oportunistas – optando, na grande maioria dos casos, por alvos simbólicos fáceis de atacar – a ONU tem que tomar medidas mais duras para tornar as suas instalações mais segurar se deseja continuar operando.
Apesar de grandes esforços para se dissociar dos EUA, o destino da ONU parece ter sido selado pela invasão norte-americana do Iraque, a qual a administração Bush retratou como uma operação autorizada pela ONU. Após a derrubada do regime de Saddam Hussein, a ONU expandiu sua presença em Bagdá para auxiliar projetos de reconstrução iraquianos. Como parte dos esforços da Organização para continuar como uma instituição neutra, seu escritório nacional foi mantido no Hotel Canal na zona central da cidade, ao invés de se estabelecer na protegida Zona Verde. O custo de tentar parecer imparcial ao se estabelecer abertamente no meio da sociedade iraquiana foi deixar a sua sede amplamente exposta – decisão que se provou fatídica quando terroristas bombardearam o complexo da ONU em 19 de agosto de 2003, matando 22, incluindo o Representante Especial da ONU no Iraque, o brasileiro Sergio Vieira de Mello.
Desde o ataque a Bagdá, a ONU convocou diversas juntas de especialistas que publicaram vários relatórios sobre como melhorar a segurança de funcionários e instalações da Organização. Os relatórios recomendaram, entre outras coisas, que a ONU melhorasse a administração interna e a supervisão. Mas muitos destes conselhos, garantindo maior imputabilidade, foram desconsiderados ou postos em prática de maneira superficial. Os conselhos que foram ouvidos, como a criação de um departamento responsável pela proteção e segurança, claramente não fizeram o bastante para mitigar as vulnerabilidades enfrentadas pela instituição, a qual, desde o ataque em Bagdá, tem sido alvo de ao menos dez atentados terroristas por ano.
É claro que proteger a ONU não é barato, e instalações cada vez mais militarizadas provavelmente reforçarão a percepção de que a ONU é uma presença estranha em muitos países. Mas num mundo em que as pessoas perguntam “A ONU? Os EUA? Qual a diferença?”, a alternativa parece mais dispendiosa.
*Texto traduzido e adaptado pelo Opinião e Notícia
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