quarta-feira, 8 de junho de 2011

Empresas levam suas fábricas de volta aos Estados Unidos

“Quando clientes consideram a hipótese de abrir outra fábrica na China, eu os imploro para que considerem locações alternativas”, diz Hal Sirkin, do Boston Consulting Group (BCG). “Será que eles pensaram, por exemplo, no Vietnã? Ou será que chegaram a tentar produzir algo nos Estados Unidos?” Quando seus clientes são companhias norte-americanas querendo construir fábricas para atender a clientes norte-americanos, Sirkin cada vez mais sugere que eles fiquem nos Estados Unidos, não por razões patrióticas, mas porque a economia da globalização está passando por uma rápida transformação.

A arbitragem trabalhista – tirar proveito de salários mais baixos no exterior, especialmente nos países mais pobres – nunca foi a única força empurrando as multinacionais pra fora de seus países de origem, mas certamente teve uma grande importância. Agora, no entanto, com o boom das economias emergentes, os salários estão subindo. O pagamento aos operários chineses, por exemplo, teve um aumento de 69% entre 2005 e 2010. Logo, os ganhos da arbitragem trabalhista começam a diminuir, em alguns casos tornando-se irrelevantes, de acordo com um novo estudo do BCG.

“Em algum momento por volta de 2015, a indústria que produz para o consumo norte-americano será indiferente quanto à localização de suas fábricas, seja nos Estados Unidos ou na China”, diz Sirkin. Esse cálculo parte do princípio que o crescimento salarial continuará por volta dos 17% anuais na China, e permanecerá relativamente lento nos Estados Unidos, e que o crescimento da produtividade continuará seguindo as tendências atuais em ambos os países. O estudo também prevê uma apreciação modesta do yuan em relação ao dólar.

O ano de 2015 não está tão longe. Fábricas demoram a ser construídas, e podem continuar a produzir engenhocas por anos. Portanto, empresas que planejam hoje a produção do amanhã estão voltando seus olhos cada vez mais para os países de origem. O BCG lista diversos exemplos de empresas que já levaram fábricas e trabalhos de volta aos Estados Unidos. A Caterpillar, uma fabricante de veículos agrários, está levando parte de sua produção de retro escavadeiras de volta ao Texas. A Sauder, uma fabricante norte-americana de móveis, também esta trazendo de volta a produção de países de salários baixos. A NCR levou de volta a produção de caixas eletrônicos para a Geórgia (o estado norte-americano, não o país ocasionalmente invadido pela Rússia). No ano passado, a Wham-O recuperou metade da produção de seus frisbees e bambolês em solo norte-americano, diminuindo sua produção na China e no México.

O BCG prevê um “renascimento da manufatura” nos Estados Unidos, mas há razões para o ceticismo. O surto de produção manufatureira do ano passado foi motivado pela necessidade de recuperar terreno perdido durante a crise financeira. Além disso, algumas das novas fábricas do país foram agraciadas com subsídios que podem, em breve, se esvair. Mas ainda assim, a nova economia da arbitragem trabalhista fará a diferença.

Ao invés de uma infinidade de fábricas voltando para o país, “salários mais altos na China podem fazer com que algumas empresas que iam diminuir suas operações nos Estados Unidos mantenham suas opções em aberto, mantendo suas fábricas no país”, diz Gary Pisano, da Harvard Business School. O anúncio, feito no dia 10 de maio, de que a General Motors (GM) irá investir US$ 2 bilhões para criar mais 4 mil empregos em 17 fábricas sustenta a visão de Pisano. A GM provavelmente não está criando muitos empregos novos, mas mantém nos Estados Unidos empregos que numa situação diferente, poderiam ter sido exportados.

Mesmo que salários na China disparem, algumas multinacionais terão dificuldade em trazer tantos empregos de volta para os Estados Unidos, afirma Pisano. Em algumas áreas, como em produtos eletrônicos, o país já não tem mais a base de oferta ou a infraestrutura necessárias. Empresas não perceberam, quando levaram suas operações para países de salários baixos, que algumas manobras seriam “praticamente irreversíveis”, diz Pisano.

Muitas multinacionais continuarão a construir a maior parte de suas novas fábricas em mercados emergentes, não para exportar seus produtos de volta, mas sim porque nesses mercados, a demanda está crescendo rapidamente. E empresas de outros países ricos provavelmente continuarão aproveitando a oportunidade de arbitragem trabalhista por mais tempo que as norte-americanas, diz Sirkin. Seus custos trabalhistas são mais altos que os dos Estados Unidos e permanecerão dessa forma a menos que o euro caia dramaticamente em relação ao yuan.

Não há lugar como o lar

A oportunidade da arbitragem trabalhista está desaparecendo cada vez mais rápido na manufatura básica na China. Outros setores e países são menos afetados. Como Pankaj Ghemawat, autor de “World 3.0”, destaca, apesar do rápido aumento salarial na Índia, sua indústria de softwares e terceirização de escritórios deve manter sua vantagem de custo pelos próximos anos, também graças ao seu rápido crescimento de produtividade.

Ainda assim, um número cada vez maior de multinacionais, especialmente nos países ricos, começam a ver os benefícios de manter porções cada vez maiores de sua produção perto de casa. Para muitos produtos, o trabalho é uma porção cada vez menor dos custos totais. E longas e complexas cadeias de fornecimento se mostram mais arriscadas do que muitas firmas perceberam. Quando os preços do petróleo disparam, o transporte se torna mais caro. Quando uma epidemia como a gripe aviária atinge a Ásia, ou quando um terremoto atinge o Japão, cadeias de fornecimento são interrompidas. “Houve uma clara redução das cadeias de fornecimento, especialmente aquelas com 30 ou 40 etapas no processo”, diz Ghemawat.

As empresas também estão tentando reduzir os custos de seu armazenamento. Importações da China para os Estados Unidos podem exigir que uma companhia utilize 100 dias de armazenamento. Esse fardo pode ser consideravelmente reduzido se os bens forem fabricados num local mais próximo (que poderia ser o México ao invés dos Estados Unidos).

As empresas estão pensando de maneira mais sofisticada a respeito de suas cadeias de fornecimento. Os chefes já não partem mais do princípio de que devem sempre produzir nos países com salários mais baixos. Cada vez mais, faz sentido produzir em uma variedade de locais, incluindo os Estados Unidos.

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