segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Tobogã da economia

Tobogã da economia
Antonio Machado

O clima na economia global está fechando outra vez, com alertas e chamados à prudência expelindo o teor otimista dos comunicados dos economistas, consultorias, dos bancos e de governos, até de países emergentes que escaparam relativamente incólumes à grande crise.

Em meio ao ambiente festivo da campanha eleitoral, o consumo com pegada firme, empregos e salários crescendo, oposição desalentada pela avassaladora taxa de aprovação do presidente Lula, aqui tais prognósticos pessimistas só estão refletidos no eletrocardiograma do preço das ações na Bovespa e no fluxo de ingresso de capitais.

O noticiário econômico e a maioria das análises tratam a crise lá fora descontextualizada da economia nacional, enquanto ao governo não convém, pelo menos até o término do processo eleitoral, turvar a sensação de bem-estar da sociedade atribuída ao crescimento.

Ainda não se entranharam nas decisões e no debate análises sérias sobre as consequências de outro tombo dos EUA - e encavalado agora com o reconhecimento da dificuldade da China para mudar seu modelo de crescimento do pólo exportador para o mercado doméstico.

Se um dos dois motores da economia globalizada deixar de rodar em velocidade de cruzeiro, como vinha a China desde que degringolou o dos EUA, o mundo pode não parar, mas será como entrar à noite numa estrada de mão dupla, sem sinalização, chovendo e congestionada. O risco de colisões e engavetamento é elevado.

Do que se gabam governos como Lula com a chamada “nova geografia comercial”, que enfatiza o intercâmbio comercial com emergentes em geral e a China em particular, em detrimento do comércio com EUA, é totalmente dependente desse fenômeno apelidado de G-2: a relação umbilical entre as economias chinesa e americana.

É ela que tem feito o bode dos déficits comerciais dos EUA voar, já que financiados pelas reservas acumuladas pela China graças ao renminbi propositalmente depreciado. A China se tornou a fábrica de produtos baratos dos EUA, primeiro, e do mundo, depois.

Isso tem um preço salgado: a China sustentar os déficits dos EUA, enviando dois terços das reservas acumuladas (US$ 2,3 trilhões) e não aplicadas no país em papéis indexados ao dólar. A depreciação foi bancada, como explica o economista americano Michael Pettis, professor da Universidade de Pequim, à custa de salários ínfimos, rede pública pífia de serviços sociais e impostos indiretos.

Caronas da bicicleta
O desbalanceamento entre déficits dos EUA e superávits da China, secundados por outros superavitários como produtores de petróleo, Alemanha, Japão, Brasil e Índia – e os dois últimos influenciados pelas importações chinesas de bens primários -, a crise global não resolveu. Mas expôs a fragilidade do arranjo e desidratou os EUA.

Se a bicicleta que movimenta a interação EUA-China parar, não cai um ou outro apenas. Caem os dois e todos os países dependentes das pedaladas de ambos, acidentando-se os que mais estão condicionados à dinâmica importadora da China. Brasil está na fila do gargarejo.

Tecla pausa acionada
Nos EUA é como tivesse sido pressionada a tecla pausa da retomada iniciada em meados do segundo semestre de 2009. “Nós assistimos a uma pausa da recuperação, uma recuperação modesta, mas a pausa de uma recuperação modesta é sentida como uma quase-recessão”, disse o ex-presidente do Federal Alan Greenspan, personagem polêmico, já que muito ouvido, embora acusado de ter gestado a crise ao manter por tempo demais, nos anos 2000, juros básicos próximos de zero.

Os alertas de Ben Bernanke, seu sucessor no Fed, não desautorizam o pessimismo. Greenspan acha alto o risco de outra recessão, até pela paralisia do governo Barack Obama pela eleição legislativa de novembro. Pesquisas sinalizam que vai perder a maioria na Câmara.

Encruzilhada chinesa
Na China, o aumento do consumo doméstico esperado não vem, o que parece empurrar o governo à velha saída de exportar o que produz. O país se tornou o maior mercado de carros do mundo, por exemplo, com 15 milhões de unidades vendidas em 2009, superando os EUA.

Mas o secretário-geral da associação dos fabricantes, Dong Yang, como destaca o economista Pettis, projeta para o ano crescimento de apenas 10%, vindo de 48% no primeiro semestre e 45% em 2009. Ou seja, os recordes de vendas se deveram somente a incentivos dados pelo governo. Sem eles, as vendas devem cair 20% neste semestre. Com EUA trafegando na contramão do crescimento e a China pisando no freio, o que virá? No Brasil, só o mercado interno não basta.

Selic aliena o debate
A situação da economia global, ditada pelo que vai aos EUA, China e mais atrás Europa e Japão, vai influenciar a política econômica do futuro governo. Nenhum país é uma ilha. Dos países que importam se sabe tudo. Da China, porém, só o que o governo chinês informa.

A censura alcança até o relatório anual do FMI, fonte primária de comparações entre economias e de suas projeções. Mais que isso só garimpado. A agência Bloomberg, por exemplo, achou numa revista de junho do governo chinês artigo em que o vice-premiê Li Kegiang diz que o modelo econômico criou uma “estrutura econômica irracional”. “O desenvolvimento descoordenado e insustentável é cada vez mais evidente”, disse, agitando o já movediço cenário global. Foi outro sinal do debate medíocre no Brasil, se limitado à Selic.

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